Clarice Lispector, a senhora...





Clarice Lispector,
a senhora não devia
ter-se esquecido
de dar de comer aos peixes
andar entretida
a escrever um texto
não é desculpa
entre um peixe vivo
e um texto
escolhe-se sempre o peixe
vão-se os textos
fiquem os peixes
como disse Santo António
aos textos.

ADÍLIA LOPES
Obra
Ed. Mariposa Azual


voz - Cristina Paiva

música – Solvent

sonoplastia e fotografia - Fernando Ladeira

O caminho inventa o caminho...





O caminho inventa o caminho as poeiras transformam-se em
roda voadora abre os seus próprios caminhos a seres que
andam uns sobre os outros

Caminhos cavados nos restos de outros caminhos

escrevíamos as palavras sobre as coisas
ou
escrevíamos as coisas sobre as palavras


ADONIS
O arco-íris do instante
Ed. D. Quixote

tradução - Nuno Júdice

voz - Cristina Paiva

música – Burial

sonoplastia e fotografia - Fernando Ladeira

Diálogo






Nunca pensei num poema como sendo um monólogo que se originou algures no fundo da minha boca ou da minha mão

Um poema coloca-se sempre nas condições de um diálogo virtual

A hipótese de um encontro a hipótese de uma resposta a hipótese de alguém

Mesmo na página: a resposta que a linha supõe, bem como as deslocações, os formatos

Alguma coisa vai sair do silêncio, da pontuação, do branco subir até mim

Alguém vivo, com nome: um poema de amor

Mesmo quando a omissão, a falta de direcção, a direcção pronominal tornam possível essa translação: encontra-se um leitor perante a página, diante da voz do poema como

no instante do seu nascimento

Ou da sua recepção: leitor leitor ou leitor autor

Este poema é-te destinado e nada encontrará

JACQUES ROUBAUD
Sud-Express, poesia francesa de hoje


tradução - Urbano Tavares Rodrigues

voz - Cristina Paiva

música – Test Dept

sonoplastia e fotografia - Fernando Ladeira

fotografia de Jacques Roubaud – Ben Handz

Quando sós à boleia do crepúsculo [para o Fernando Guerreiro]





Não mais a literatura, os seus
fúteis e imperiosos desígnios
- julgamos dizer, insistindo
numa ourivesaria do terror
e em gestos que sabem o quanto
chegam tarde. Quando sós,
à boleia do crepúsculo, dizemos
coisas assim, mentimos com
os dentes todos que não temos.

E a mentira (a literatura)
é ainda a improvável derrota
de que não nos salvaremos
nunca. Tão igual à vida, portanto:
pouso o copo, recupero o fôlego,
fumo uma silepse. Sei que vou morrer.

E isso que - talvez - nos diz
é uma evidência que escurece
(tivemos por amigo o desconforto).

Quanto ao mais, vamos andando.
Casados ou sozinhos. Mortos.


MANUEL DE FREITAS
[SIC]


voz - Cristina Paiva

música – Terje Rypdal

sonoplastia e fotografia - Fernando Ladeira

fotografia de Manuel de Freitas – ?

Os badamecos





Os badamecos
tão engraçados
sujam paredes,
são malcriados.

Andam em férias
como vadios.
Cheiram que fedem,
de mal lavados.

Têm brinquedos,
alguns perigosos,
adquiridos
pelos mais ranhosos.

E quando dormem
o seu soninho,
mijam na rua,
sonham-se grandes.

Nunca se faça
mal aos meninos,
à linda graça
de nós tontinhos.

Que nos lembremos
sempre aos demais:
Casa de filhos,
escola de pais!

RUY CINATTI
Memória Dividida


voz - Cristina Paiva

música – Goran Bregovic

sonoplastia e fotografia - Fernando Ladeira

pintura de Ruy Cinatti - Maluda

ilustração - Laurent Lufroy

sobreiro inútil





sobre um canto
escuro, dentro de
uma grande árvore
vivia um homem
de emoções reprimidas.
reprimidas, dizes tu?
bem, não reprimidas...
afugentadas.
ah, afugentadas é diferente.
sim... era um homem obrigado
a viver em exílio por ter
emoções fortes, um
homem marginalizado
pela incompreensão e por
julgamento precipitados...
triste, meu caro,
tendes uma história algo triste.
uma pessoa julgada
precipitadamente
que se tornou um peso
morto, sabeis? uma daquelas
pessoas de ambições destruídas
e de sonhos esmigalhados
obrigado a reprimir-se
e a viver na sombra
do que uma vez foi...
como eu disse...
um peso morto.

DIOGO LOPES
ContraBaixo


voz - Cristina Paiva

música – The Cinematic Orchestra

sonoplastia - Fernando Ladeira

fotografia – Nuno Ferreira Santos e Fernando Ladeira