Míssil





Dentro de minutos,
com estrondo,
vai cair.
Quantos meninos
neste instante
ainda estão a rir?

JOÃO PEDRO MÉSSEDER
Pequeno livro das coisas
ilustração - Rachel Caiano
Ed. Caminho


voz - Cristina Paiva

música – Visit Venus

sonoplastia e fotografia - Fernando Ladeira

Chamam-lhe amor





Há que dar às coisas nomes curtos e simples,
para que a palavra nos venha aos lábios
obedientemente canina,

mas o certo
é que lhe poderíamos dar um outro nome
- qualquer um -

Boby, Tejo ou Lassie, fora o amor uma cadela
parida com as tetas maceradas a roçar o chão.

Qualquer nome lhe daríamos, ao amor
e o resultado seria sempre o mesmo:

Um ganido tímido
a morder-nos de cio o coração da noite.

RITA TABORDA DUARTE

Roturas e Ligamentos
Ilustração - André da Loba
Ed. Abysmo


voz - Cristina Paiva

música – Lou Reed

sonoplastia e fotografia - Fernando Ladeira

Clarice Lispector, a senhora...





Clarice Lispector,
a senhora não devia
ter-se esquecido
de dar de comer aos peixes
andar entretida
a escrever um texto
não é desculpa
entre um peixe vivo
e um texto
escolhe-se sempre o peixe
vão-se os textos
fiquem os peixes
como disse Santo António
aos textos.

ADÍLIA LOPES
Obra
Ed. Mariposa Azual


voz - Cristina Paiva

música – Solvent

sonoplastia e fotografia - Fernando Ladeira

O caminho inventa o caminho...





O caminho inventa o caminho as poeiras transformam-se em
roda voadora abre os seus próprios caminhos a seres que
andam uns sobre os outros

Caminhos cavados nos restos de outros caminhos

escrevíamos as palavras sobre as coisas
ou
escrevíamos as coisas sobre as palavras


ADONIS
O arco-íris do instante
Ed. D. Quixote

tradução - Nuno Júdice

voz - Cristina Paiva

música – Burial

sonoplastia e fotografia - Fernando Ladeira

Diálogo






Nunca pensei num poema como sendo um monólogo que se originou algures no fundo da minha boca ou da minha mão

Um poema coloca-se sempre nas condições de um diálogo virtual

A hipótese de um encontro a hipótese de uma resposta a hipótese de alguém

Mesmo na página: a resposta que a linha supõe, bem como as deslocações, os formatos

Alguma coisa vai sair do silêncio, da pontuação, do branco subir até mim

Alguém vivo, com nome: um poema de amor

Mesmo quando a omissão, a falta de direcção, a direcção pronominal tornam possível essa translação: encontra-se um leitor perante a página, diante da voz do poema como

no instante do seu nascimento

Ou da sua recepção: leitor leitor ou leitor autor

Este poema é-te destinado e nada encontrará

JACQUES ROUBAUD
Sud-Express, poesia francesa de hoje


tradução - Urbano Tavares Rodrigues

voz - Cristina Paiva

música – Test Dept

sonoplastia e fotografia - Fernando Ladeira

fotografia de Jacques Roubaud – Ben Handz

Quando sós à boleia do crepúsculo [para o Fernando Guerreiro]





Não mais a literatura, os seus
fúteis e imperiosos desígnios
- julgamos dizer, insistindo
numa ourivesaria do terror
e em gestos que sabem o quanto
chegam tarde. Quando sós,
à boleia do crepúsculo, dizemos
coisas assim, mentimos com
os dentes todos que não temos.

E a mentira (a literatura)
é ainda a improvável derrota
de que não nos salvaremos
nunca. Tão igual à vida, portanto:
pouso o copo, recupero o fôlego,
fumo uma silepse. Sei que vou morrer.

E isso que - talvez - nos diz
é uma evidência que escurece
(tivemos por amigo o desconforto).

Quanto ao mais, vamos andando.
Casados ou sozinhos. Mortos.


MANUEL DE FREITAS
[SIC]


voz - Cristina Paiva

música – Terje Rypdal

sonoplastia e fotografia - Fernando Ladeira

fotografia de Manuel de Freitas – ?